sábado, 18 de abril de 2009

O MST E AS ESCOLAS ITINERANTES.

Queridos(as) Leitores(as).
As notícias sobre o fechamento da escola itinerante do MST, no acampamento Oziel Alves, município de Sarandi, no Rio Grande do Sul, são preocupantes. Segundo a Coordenação da Comissão Pastoral da Terra trata-se de um verdadeiro terrorismo cultural, pois as 130 crianças atendidas poderão ficar sem aulas ou passarem o dia todo fora de casa, parte nos transportes precários, parte em escolas urbanas estranhas à sua cultura. O Termo de Ajustamento de Conduta, firmado 28 de novembro de 2008, com o governo do Estado, sem o conhecimento e a participação dos pais, educandos e da escola-base onde as crianças estão matriculadas, tem por objetivo acabar com as Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST. O que são essas escolas?
São uma experiência pioneira do MST, garantindo a educação escolar para as crianças e adolescentes dos seus acampamentos, amparada nos direitos sociais inscritos na Constituição Federal de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, e nas Diretrizes Operacionais para Escolas do Campo, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação em 2002. Em 1996, o RGS foi o primeiro estado a apoiar tal iniciativa e as aulas, ministradas nos acampamentos passaram a ter o amparo legal garantindo aos educandos a continuidade dos estudos em qualquer lugar onde ocorressem. Os estudantes são matriculados numa escola-base, e participam das aulas em seu acampamento. A experiência gaúcha se espalhou por diversos Estados do Brasil e foi premiada com o Prêmio Educação, do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul.

terça-feira, 14 de abril de 2009

EDUCAÇÃO, MST E NOVAS SUBJETIVIDADES.


No texto “Maestros Errantes”, Silvia Duschatzky[1] nos fala que a “errancia” se torna uma experiência política quando podemos tomar a precariedade como plataforma de pensamento de novos modos de relação social. Diz ela que a construção de um “mundo” na precariedade, politiza a experiência errante. Novos regimes de ver, sentir e produzir criam novas subjetividades, fazendo com que os mestres errantes trabalhem na tensão entre suas representações e a força dos fluxos viventes, produzindo práticas que se arrojam no ensaio de estratégias variadas para tornar possíveis formas de composição com outros.
O texto de Duschatzsky, já comentado aqui no blogue dias atrás, me fez refletir sobre a forma como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) enfrentou as tentativas do procurador Gilberto Thums, do Ministério Público gaúcho, de fechar as escolas itinerantes do movimento e que estão localizadas em acampamentos. Conforme reportagem do Zero Hora, o procurador desistiu de enfrentar o MST após ser constrangido em audiência pública na Assembléia Legislativa com a presença de 200 filhos de sem-terra que tentavam reverter o processo que determinava o fechamento das escolas. Segundo a mesma reportagem, desde 2008, o Ministério Público (MP) gaúcho tem sido pressionado por entidades ligadas à área de Direitos Humanos, sob a acusação de “criminalizar os movimentos sociais”. Uma comissão especial, formada no âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, do governo federal, considerou “preocupante” e “grave” o tratamento dado ao MST no Estado.Thums recebeu críticas de companheiros do Ministério Público. De Brasília, também partiram ataques da ouvidoria agrária nacional, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, que apresentou ao Conselho Nacional do Ministério Público um pedido de providências sobre a política de autuação do MP gaúcho em conflitos no campo. A justificativa do pedido calou fundo nos promotores e procuradores: o MP estaria afrontando os direitos fundamentais, em especial o princípio da dignidade da pessoa humana. Entre os seus pares, as mais duras críticas partiram de promotores ligados às áreas dos Direitos Humanos e da Infância e da Juventude. Desde o início das ações contra o MST, em 2008, promotores das duas áreas temiam a contaminação ideológica em assuntos técnicos. O desconforto tornou-se insustentável após a assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o governo do Estado, em fevereiro de 2009, sepultando as escolas itinerantes em acampamentos do MST. Esse termo foi feito sem que os promotores da área da Infância e da Juventude fossem consultados.Há uma semana, o então coordenador do Centro de Apoio Operacional da Infância e da Juventude procurador Miguel Velasquez, e a promotora da Infância e da Juventude Synara Jacques Butelli enviaram um ofício para aprocuradora-geral Simone Mariano da Rocha devolvendo o TAC. Na prática, a devolução indicava para a procuradora que, ao não participar da confecção do termo, os promotores não se sentiam confortáveis em executá-lo. A pressão prosseguiu na Assembléia, na última terça-feira, em uma reunião da Comissão de Educação, presidida por Mano Changes – parlamentar do PP, sigla historicamente contrária ao MST. Em sua primeira manifestação no encontro, Thums condenou as escolas itinerantes e os sem-terra, definido por ele como um movimento “guerrilheiro”. Ao final, após ouvir manifestações de deputados e de técnicos, reconheceu que o TAC poderia ser revisado. Ao receber uma cópia do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) das mãos de uma criança, o sempre sério Thums esboçou um sorriso.

Em entrevista ao Zero Hora e à Rádio Gaúcha, Thums admite a possibilidade de um meio termo, mas considera que freqüentar uma escola do MST e não freqüentar nenhuma dá na mesma, pois “não há controle (...).Ninguém sabe quantos dias as crianças frequentam a escola, ninguém conhece o programa mínimo que ela recebe na escola. Honestamente,vai mudar muito pouco”. Thums resolveu se afastar por vários motivos, entre eles, cita a pressão que tem sofrido por parte das universidades, de alguns intelectuais, da internet. Na sua opinião, os pais matriculariam seus filhos em escolas públicas e finaliza sua entrevista dizendo: “A gente não avaliou o poder do movimento. O movimento é mais forte do que qualquer instituição. Eu não imaginaria que eles iriam mesmo enfrentar essa decisão. Tenho a impressão de que, no futuro, vão me dar razão, vão reconhecer que eu não era tão louco assim”.

Talvez, Gilberto Thums se esforce por seguir um protocolo normativo na implantação de uma escola e não perceba o potencial de uma outra escola possível de ser construída, guiada por um movimento no qual o normativo conviva com novas sensibilidades, com práticas que envolvam sujeitos e se produzam em situação. Não se trata simplesmente, como diz Duschatzky de tolerar movimentos autônomos, mas de pensar como os micropoderes podem atravessar os sistemas de ensino e os mecanismos de intervenção do Estado que é portador de um conjunto de recursos (financeiros, técnicos, estratégicos) necessários para a potenciação de práticas emergentes.
Trata-se de pensar:
- como fazer para que esses processos de singularização ganhem consistência e expressão em múltiplos planos?
- como esses movimentos moleculares podem atravessar os sistemas que impregnam políticas, agendas e dispositivos de regulação educativa?


[1] DUSCHATZKY, Silvia. Maestros Errantes. Experiencias Sociales a la Intempérie. Buenos Aires: Paidós, 2007.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A POESIA DE UM GRUPO ARGENTINO.

Que significa hoje pensar? Que espaços podemos criar para pensarmos juntos?

Revisa "Presentacion del nodo CG Rosario" en La red de Campo GrupalPara ver este video, visita:http://redcampogrupal.ning.com/video/video/show?id=2227382%3AVideo%3A5942

segunda-feira, 30 de março de 2009

E POR FALAR EM VIOLÊNCIA...


Tenho acompanhado relatos de muitos professores da rede estadual de ensino que expressam total descrença pelo trabalho desenvolvido em sala de aula. Alunos que não respeitam ninguém, digladiam-se, atacam, depredam, roubam, não se esforçam por aprender. É para poucos que os professores mais idealistas tentam dar suas aulas.
Conversando com o Zé Pastre sobre essa situação, ele me disse que suas crônicas têm como inspiração os acontecimentos vivenciados por ele, por alguns alunos e colegas professores que trabalham em escolas públicas. Para ele, o modo como colocamos as questões é fundamental, pois nos abre possibilidades ou não de respostas. Por exemplo, se pergunto "como ser um bom profissional nestas condições?" é uma coisa; mas se pergunto "o que estamos fazendo aqui?" a questão é outra, a questão vai mais além!
Será que existe solução apenas "técnica" para os problemas que estamos vivendo? Ouvindo todas as queixas dos seus colegas, Zé Pastre entende que o que muda é a nossa relação com o que acontece. Ele sente que há uma tendência a viver o tempo como decadência: tudo no passado era melhor. Isto não é verdade. E, para aguçar nossa reflexão, Zé Pastre se reporta a Merleau-Ponty, para quem não há solução para os problemas humanos, nenhum meio de eliminar a transcendência do tempo, a separação das consciências, que podem sempre reaparecer e ameaçar nossos engajamentos, nenhum meio de verificar a autenticidade de nossos engajamentos, que podem sempre, em um momento de fadiga, nos aparecer como convenções fictícias. A existência é a decisão pela qual entramos no tempo para aí criar nossa vida. Entrar no tempo é ter uma disposição ativa para agenciar algo em torno daquilo que nos ameaça, que nos distancia das múltiplas possibilidades de atravessarmos programas e projetos por invenções e práticas não legitimadas pela gramática instituída.

domingo, 29 de março de 2009

RELATOS DE UM PROFESSOR ESGOTADO

Queridos(as) Leitores(as).
Hoje, José Luis Pastre escreveu a crônica II: "Memória de um intervalo".

Entre fendas e rachaduras parece que é nos intervalos que as coisas acontecem! É nos intervalos que tudo escapa ou tudo pode desmoronar! Certa vez Zenão presenciou um pequeno acontecimento que disparou nele uma série de questões. Isso foi em certa manhã. Havia dado o sinal para o início das aulas e ele subia as escadas em direção às salas juntamente com duas colegas professoras, por coincidência, duas professoras de química. Uma delas estava voltando a trabalhar naquele dia depois de uma semana de licença, pois o pai havia falecido na semana anterior. Subiam lentamente as escadas. A professora subindo os degraus com seu corpo frágil, e Zenão e a outra colega acompanhando-a com poucas palavras. Ao terminarem de subir os degraus, encontraram os alunos, em sua alegria plena de encontrar-se com os colegas nos momentos em que antecedem as aulas, e três alunas, da classe em que a professora – cujo pai havia falecido – ia dar a primeira aula naquele dia, vieram ao encontro deles e disseram para a professora: “Ah professora, a senhora veio?!”…
Esse tipo de pergunta era comum. Às vezes alguns alunos a faziam para alguns professores, quando estes apareciam na sala – e acabavam com a esperança dos alunos de que algum professor tivesse faltado. Se isto ocorresse, isto é, se algum professor, ou professora, tivesse faltado, eles poderiam ir embora mais cedo, ou então ficar ouvindo música e conversando no pátio da escola. No entanto, às vezes, esse tipo de pergunta podia ter outro sentido, não ser apenas um lamento, mas uma forma de brincadeira, expressando certo estado de humor e de alegria na relação entre professores e alunos. Isso acontecia quando havia certa aproximação, certo tipo de afetividade, na relação. Alguns professores também faziam este tipo de pergunta: “Ah vocês vieram?!”... Algumas vezes era também um lamento que alguns professores partilhavam entre si, principalmente em final de bimestre, ou feriados prolongados: “Ah o pessoal da 8ª D está todo aí! Pensei que fosse poder terminar de corrigir as provas!”.
Mas aquela pergunta, naquele momento! A professora estava passando por uma situação difícil com a morte do pai e Zenão não sabia qual poderia ser sua reação, temia que aquela pergunta pudesse aumentar ainda mais o seu sofrimento. Além disso, havia certo tom ambíguo na pergunta daquelas jovens e Zenão não tinha certeza se a professora tinha uma boa relação com elas. Os professores foram pegos de surpresa! No entanto, diante daquela pergunta, na ambiguidade de seu tom, mistura de interrogação com exclamação, seus olhares se cruzaram e a professora, na sua fragilidade e com humor, respondeu: “Ah, vocês também vieram?!” E todos se olharam novamente, riram e foram trabalhar. A professora foi acompanhada pelas alunas que a ajudaram a carregar seu material.
Daquele pequeno intervalo entre a pergunta, mistura de humor e ironia, que às vezes alguns alunos costumam fazer, e a resposta, que devolvia a pergunta, mistura de dor e alegria, várias questões emergiram na cabeça de Zenão. Não que nunca tivesse pensado naquelas questões, é que naquele intervalo elas foram tomadas por outra intensidade e lançaram Zenão a uma procura: O que estavam fazendo ali? Por que não tinham todos, alunos e professores, fugido, ido para outro lugar qualquer? E se estavam ali, como usavam aquele tempo de suas vidas, naquele espaço da escola? Tempo de trabalho? Tempo de estudo? O que acontece neste intervalo de tempo que passamos na escola? Mas a escola é um intervalo? O que acontece neste intervalo?

quarta-feira, 18 de março de 2009

OLHAR SOCIOLÓGICO

Olá, não deixem de acessar o blogue da Edwiges Rabello de Lima chamado Olhar Sociológico. Professora da Rede Estadual de Ensino em Campinas e Jaguariuna, Edwiges nos apresenta uma Sociologia viva, problematizadora e instigante para os jovens alunos.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O SAMBA DA MAIS VALIA

Queridos Leitores e Queridas Leitoras.
O Samba da Mais Valia foi criado por Sérgio Silva e gravado no início de 2005. Sucesso carnavalesco e ouvido nas Rádios Livres de vários lugares do mundo este samba pode ser divulgado nas escolas, principalmente por professores de Sociologia ou por quem estiver trabalhando com essa temática. Onde encontrá-lo: www.youtube.com ; em busca, digitar:
Samba da Mais Valia.

segunda-feira, 2 de março de 2009

RELATOS DE UM PROFESSOR ESGOTADO

Queridos(as) Leitores(as)
José Luiz Pastre é professor da Rede Estadual de Ensino, doutorando do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisador do grupo Violar. A partir de hoje, ele passará a escrever crônicas no meu blogue. Essas crônicas receberão o seguinte título “Relatos de um professor esgotado”. Esses relatos abrigam um conjunto de memórias contadas por um personagem virtual, porém real, chamado Zenão. Trata-se de situações vividas enquanto trabalhava em escolas públicas e que, de algum modo, o impressionaram. Aqui, o esgotamento não tem nada a ver com cansaço. Tem mais a ver com busca, com procura...
Hoje, ele nos brinda com a Crônica I: Memória de um Drama.


Para cantar é preciso primeiro abrir a boca.
É preciso ter um par de pulmões e
um pouco de conhecimento de música.
Não é necessário ter harmônica ou violão.
O essencial é querer cantar.
Isto é, portanto, uma canção.
Eu estou cantando.

Henry Miller – Trópico de Câncer


Crônica I: Memória de um drama: Foi uma manhã de uma terça-feira de novembro de 2005. Tinham acabado de sair da sala da direção. Zenão lembra-se vagamente das palavras de Clarice, aluna do 3c, enquanto subiam a escada, era algo como “Professor não desista!”, querendo dizer “Não fraqueje!”, “Não se arrependa de ter nos apoiado!”. Já na sala, enquanto ele recolhia seu material de trabalho, pois havia dado o sinal para a troca de professores, Pagú entrou, sentou-se numa carteira, abaixou a cabeça, mas logo em seguida a levantou, com os olhos cheios de lágrimas! Ele se aproximou, seus olhares se cruzaram, e ela simplesmente lhe disse: “Nós conseguimos!”. Ele, ainda atordoado pelos acontecimentos, fez que sim com a cabeça. Havia naquelas lágrimas, naquelas palavras, uma força e uma alegria. Aqueles alunos tinham acabado de ser ameaçados de serem expulsos da escola porque escreveram um jornal-panfleto em que expunham suas idéias, suas críticas, a respeito da escola. Zenão se lembra que enquanto eram ameaçados de serem expulsos, permaneciam impassivos diante da “paranóia delirante”: “Estão tentando derrubar a direção!?”. Quando diante da diretora, perguntou se ela já havia lido o jornal, ela disse que não, mas aquelas baratas na capa... Além disso, eles mudaram o nome da escola de “Oliveira” para “Sujeira”, e ela se matando para manter a escola limpa para eles. Zenão tentou explicar que a barata era uma metáfora Kafkaniana (foi o que lhe veio na hora – mais tarde descobriu que uma das alunas havia lido “A metamorfose” de Kafka), mas não adiantou. Ela também chorou. Mas havia naquelas lágrimas medo. Tantos medos. O medo de ler o jornal. O medo das baratas. O medo do que os superiores poderiam pensar. O medo de ser “derrubada”. Ela achava que havia alguns professores usando os alunos para derrubá-la. Na verdade, boa parte dos professores e funcionários pensavam a mesma coisa. Eles não acreditavam que aqueles textos tinham sido escritos por aqueles alunos. Havia “alguém por trás”. Ou eles subestimavam o próprio trabalho, ou subestimavam os alunos, ou as duas coisas! Zenão não soube dizer! O fato é que talvez “aquilo”, alunos de uma escola pública se expressando, pensando, eles não esperavam. Uma semana depois, quando Zenão disse para um colega professor que a aluna que escreveu o editorial havia passado num dos primeiros lugares do vestibular no curso de filosofia na USP, ele levou um susto e ficou mudo.
No final, os alunos não foram expulsos. Mas uma fenda foi aberta naquele dia... Se olharmos bem talvez a escola inteira esteja cheia de fendas... Como isto ainda funciona com todas estas rachaduras?