sábado, 6 de março de 2010

AMEAÇAS CONTRA LÍDERES DE MOVIMENTOS SOCIAIS


Queridos(as) leitores(as)

Hoje venho pedir a atenção de vocês para um assunto muito grave e diante do qual não podemos nos calar.
Pessoas vinculadas ao Tribunal Popular de São Paulo vêm recebendo ameaças de morte devido a denúncias que registram junto ao Ministério Público. Para quem não sabe, o Tribunal Popular é constituído por profissionais e militantes de várias áreas que além de denunciarem injustiças cometidas contra cidadãos trabalhadores, pobres, oferecem recursos jurídicos para a investigação de mortes por homicídio nas famílias que sofrem perdas e não podem arcar com os custos dessa investigação. Considero que esse tipo de ameaça atinge a todos nós, pois o trabalho do TP tem por objetivo oferecer segurança não somente a todos aqueles que, por falta de recursos financeiros, ficam desamparados ante a Lei como também aprofundar a análise de fatos divulgados pelos meios de comunicação e que nem sempre correspondem aos reais acontecimentos.
Nossa frágil democracia ainda precisa da ajuda de todos nós. O trabalho desenvolvido pelos Tribunais Populares representa uma importante estratégia de defesa de direitos. Existem outras formas de luta, mas a do TP tem sua importância porque “coloca o dedo direto na ferida”. Por isso, endosso minha solidariedade às lideranças dos movimentos sociais, ressaltando a coragem dos(as) companheiros(as) que se expõem em defesa dos direitos humanos e defendem a expansão dos benefícios sociais, políticos, culturais para uma parcela cada vez maior da população brasileira.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O NOME DO PAI

Olá queridos(as) leitores(as)
Hoje vou lhes apresentar uma história intrigante contada pelo meu amigo Mariguela.



Com certa freqüência sou interrogado: "você é parente do Carlos Marighella?" Esta pergunta sempre me perseguiu desde que passei horas numa sala do quartel militar em Campinas onde em cumprimento ao dever cívico, realizei alistamento. "O que você é do Carlos Marighella?", perguntava-me o oficial com uma voz cada vez mais intimidadora. "Não sei quem é Carlos Marighella", respondia com um pavor cada vez maior. Tentava em vão lembrar algum parente com esse nome. De súbito, veio a lembrança de uma cena em 1969: a televisão anunciava a morte do guerrilheiro Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar. A imagem de um corpo baleado dentro de um fusca e o nome Marighella pronunciado produziu rápida associação levando minha mãe ao desmaio. Naquele mesmo dia, meu pai viajava num fusca branco comprando plantações de goiabas e tomates nos sítios da região noroeste do Estado de São Paulo.
Nada disse dessa lembrança ao oficial que me interrogava. Num relance, vi o nome Carlos Marighella escrito numa folha sobre a mesa do oficial. Arrisquei timidamente e quase sem voz, a seguinte observação: o meu Mariguela é com gu e não com gh. No pé da letra, consegui ser liberado e ao mesmo tempo engajado numa busca arqueológica do nome do pai.
No livro Batismo de Sangue - Guerrilha e Morte de Carlos Marighella, publicado pela Rocco, Frei Betto narrou a trajetória do líder revolucionário traçando os contornos do regime militar que assumiu o controle do Estado durante a ditadura. Lançado em 1982, o livro ganhou o Prêmio Jabuti na categoria de melhor livro de memórias. Recentemente foi transformado em roteiro de filme. Com essa leitura, meu interesse cresceu em intensidade e impulsionado pela curiosidade infantil, construí minha árvore genealógica para verificar se havia algum grau de parentesco entre meu bisavô paterno e o pai do Carlos.
Descobri que ambos vieram de Ferrara, norte da Itália, no mesmo navio. Augusto Marighella desembarcou na Bahia e apaixonou-se por Maria Rita do Nascimento, negra haussá, vinda da África. Augusto era mecânico e consta que introduziu o martelo de borracha nos serviços de recuperação de lataria. Teve oito com sua africana, Carlos era primogênito. Meu bisavô, Henrique, seguiu viagem pelo litoral e desembarcou no porto de Santos. Na recepção aos imigrantes, seu sobrenome foi aportuguesado em novo registro civil. Seguiu para as fazendas de café na região de Itápolis, interior de São Paulo. Por lá se casou e nasceram doze filhos, meu avô, Ângelo era primogênito.
Ângelo foi alfabetizado por seu pai e assumiu a função de "ensinador das letras", expressão que usava para seu oficio. Alfabetizou todos os seus irmãos e, depois de casado com Apparecida Anjolino, começou a ensinar as letras para os demais colonos na fazenda onde morava. Depois da jornada de trabalho nos campos de café e algodão, os jovens da fazenda se dirigiam à casa do meu avô para aprender a ler e escrever numa grande mesa à luz de lamparinas de óleo. Os que não podiam pagar em dinheiro pagavam com ovos, galinha, porco, etc. Sempre que narrava essa história, meu avô concluía: na família de italiano, para não ser escravo de ninguém, é preciso saber ler e escrever. Ângelo e Apparecida tiveram quatro filhos. Meu pai, era primogênito.
Quando a crise no campo tornou-se uma realidade e a situação financeira ficou insustentável para criar seus filhos, Ângelo mudou-se com a família para a cidade com o propósito de ganhar a vida. Lá trabalhou como mecânico, marceneiro, ferreiro e servente de pedreiro. Aos poucos conseguiu montar uma oficina e foi o primeiro fabricante de charretes e carrocerias de caminhão na cidade. Meu avô era um artesão que conseguia transformar ferro e madeira em diferentes peças para uso doméstico e comercial. Quando seus filhos foram constituir suas próprias famílias, ele fechou a oficina e passou a transportar, com a charrete puxada pelo Baio, os passageiros que embarcavam e desembarcavam na estação de trem que hoje é só ruína de um tempo.


Márcio Mariguela é psicanalista e professor de história da filosofia contemporânea na Unimep.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

FORUM SOCIAL URBANO 2010.

Olá, vamos participar deste Fórum? Acabei de receber o convite.


Movimentos sociais e organizações da habitantes convidam para o Fórum Social Urbano 2010 (Rio de Janeiro, Brasil 22 - 26 março de 2010) Nos bairros e no mundo, em luta pelo direito à cidade, pela democracia e justiça urbanas.
Em março de 2010, a cidade do Rio de Janeiro irá receber o V Fórum Urbano Mundial. Organizado a cada dois anos pela Agência Habitat da Organização das Nações Unidas (ONU), a expectativa é que este ano o encontro reúna cerca de 50 mil pessoas de todo o mundo.
As edições anteriores do FUM foram dominadas pelas delegações oficiais, enquadradas pela retórica e agenda das organizações multilaterais – Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Aliança de Cidades, entre outras. Palavras, palavras, palavras... mas também um reiterado esforço de impor às cidades de todo mundo, em particular dos países periféricos, o modelo da cidade-empresa competitiva, dos grandes projetos de impacto, que aprofundam as desigualdades e os processos de aburguesamento. A retórica do alívio da pobreza não consegue esconder os fracassos de uma política que submete nossas cidades à lógica do mercado, tanto mais que se desconhecem, ou se silenciam, os mecanismos e processos que produzem e reproduzem cidades desiguais, social e ambientalmente injustas.
Em suas várias edições o FUM também tem sido incapaz de abrir espaço àqueles e àquelas que, em todas as cidades do mundo, resistem à lógica implacável da cidade-empresa e da cidade-mercadoria, que lutam por construir alternativas aos modelos adotados em vários governos, e difundidos pela “ajuda” internacional nem sempre desinteressada e por consultores, assim como por conferências e congressos mundiais onde a miséria urbana de milhões se transforma em frias estatísticas e promessas nunca cumpridas.
Por estas razões, os movimentos sociais e organizações do Rio de Janeiro vimos convidar todos os movimentos sociais e organizações da sociedade civil do mundo a construírem conosco um espaço de ampla e livre manifestação e debate no Fórum Social Urbano. Será um espaço e um tempo para nos conhecermos e reconhecermos, para trocarmos experiências e construirmos coletivamente a perspectiva de uma outra cidade: democrática, igualitária, comprometida com a justiça social e ambiental.
OBJETIVOS
O objetivo do Fórum Social Urbano é o de possibilitar o diálogo, a troca de experiências, a expressão da diversidade e o fortalecimento das articulações de movimentos sociais e organizações do mundo inteiro.
O Fórum Social Urbano se coloca também como uma oportunidade única para desvendar a verdadeira cidade que procuram esconder atrás dos muros e tapumes, assim como atrás dos discursos sobre cidades globais com os quais muitos governos justificam investimentos bilionários em grandes eventos de marketing urbano. Neste sentido, os movimentos e organizações anfitriãs pretendem oferecer aos participantes internacionais e nacionais a possibilidade de conhecer um Rio de Janeiro que não está nos cartões postais nem na propaganda oficial, um Rio de Janeiro injusto e feio, mas que é também rico de resistência e criatividade popular.
ATIVIDADES
De 23 a 26 de março de 2010, em paralelo às atividades do Fórum Urbano Mundial estarão se realizando as atividades do Fórum Social Urbano.
As atividades se organizarão como segue:
- painéis e debates em torno a 4 Eixos: Violências Urbanas e Criminalização da Pobreza; Megaeventos e a Globalização das Cidades; Justiça Ambiental na Cidade; Grandes Projetos Urbanos, Áreas Áreas Centrais e Portuárias;
- mesas e debates propostos por movimentos e organizações do Brasil e de outros países;
- exposições e projeções de vídeos;
- manifestações culturais;
- outras que forem propostas.
OS EIXOS
-Criminalização da Pobreza e Violências Urbanas Militarização das periferias e bairros populares.
Criminalização da pobreza e dos imigrantes.
- Violências urbanas, em suas múltiplas manifestações.
Racismo, machismo e homofobia na cidade. A violência contra as mulheres. Repressão e criminalização dos militantes populares e dos direitos humanos.
- Megaeventos e a Globalização das Cidades.
Copa do Mundo, Olimpíadas, exposições internacionais. Impactos de megaeventos internacionais nas cidades, a partir das experiências internacionais e do Rio de Janeiro. Quais são os “legados” e quem são seus beneficiários?
- Justiça Ambiental na Cidade.
Meio ambiente, desigual e organização do espaço urbano. Saneamento, saúde e meio ambiente. Racismo ambiental. Conflitos ambientais e as lutas de resistência. Mudanças climáticas e as cidades.
- Grandes Projetos Urbanos, Áreas Centrais e Portuárias.
“Revitalização” dos centros urbanos e áreas portuárias. Mobilidade. Processos de aburguesamento. Expulsão das populações tradicionais através da violência e através do “mercado”. Grande capital, parcerias público-privadas e a especulação fundiária. Globalização e capitalismo nas cidades.
OUTRAS ATIVIDADES
Para além dos eixos propostos, convidamos as organizações e movimentos do Rio de Janeiro, do Brasil e do Mundo a contribuírem com propostas de atividades autogestionadas.
Estas poderão ter caráter de debates, plenárias, fóruns de articulação, exposições, projeções, banquinhas ou atividades culturais. A data limite para o envio de propostas é 7 de março de 2010. A incrição de atividades deve ser feita através do preenchimento do formulário.
FÓRUM SOCIAL URBANO - PROPOSTA DE ATIVIDADE.
A Comissão de Programação buscará contemplar todas as propostas recebidas, dentro dos limites de espaço e tempo disponíveis.
Também serão organizadas visitas e tours guiados para permitir o contato direto com realidades urbanas pouco conhecidas, como manifestações culturais da cidade e experiências de luta – movimentos comunitários, ocupações, etc.
O LOCAL
As atividades do “Fórum Social Urbano” ocorrerão no espaço do Centro Cultural da Ação da Cidadania Contra a Fome, à rua Avenida Barão de Tefé 75, no bairro da Saúde (VEJA O MAPA). Trata-se de armazém portuário edificado em 1871, restaurado em 2002, que hoje acolhe eventos políticos, artísticos e culturais (VEJA FOTOS). O espaço tem 14.000 m2, oferecendo amplas condições para a realização de várias atividades simultâneas, colocação de banquinhas, etc.
O local do Fórum Social Urbano encontra-se a 300 metros do local onde transcorrerá o FUM, facilitando a circulação de todos os participantes entre os dois eventos. As visitas guiadas partirão sempre do mesmo local, conforme será oportunamente divulgado.

INFORMAÇÕES:
Fórum Urbano Social: Democracia e Justiça na Cidade
Inscrições de atividades: programacaofsu@gmail.com












sábado, 16 de janeiro de 2010

NOTÍCIAS DO HAITI.

Queridos leitores, queridas leitoras, não deixem de acessar o site abaixo indicado. Lá vocês encontrarão relatos de pesquisadores que atuam no Haiti e nos trazem uma outra visão dos acontecimentos que afetam aquele país, contrastando, em muitos aspectos, dos noticiários divulgados pela mídia nacional e internacional. Anexei aqui o texto de Otávio Calegari Jorge, mas existem outros também muito esclarecedores.
Um grande abraço.

Notícias do Haiti
http://lacitadelle.wordpress.com/2010/01/ 

Haiti: estamos abandonados
13 13UTC Janeiro 13UTC 2010, 23:39
Arquivado em: HAITI

A noite de ontem foi a coisa mais extraordinária de minha vida. Deitado do lado de fora da casa onde estamos hospedados, ao som das cantorias religiosas que tomaram lugar nas ruas ao redor e banhado por um estrelado e maravilhoso céu caribenho, imagens iam e vinham. No entanto, não escrevo este pequeno texto para alimentar a avidez sádica de um mundo já farto de imagens de sofrimento.
O que presenciamos ontem no Haiti foi muito mais do que um forte terremoto. Foi a destruição do centro de um país sempre renegado pelo mundo. Foi o resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira república negra do mundo. Os haitianos pagam diariamente por esta ousadia.
O que o Brasil e a ONU fizeram em seis anos de ocupação no Haiti? As casas feitas de areia, a falta de hospitais, a falta de escolas, o lixo. Alguns desses problemas foram resolvidos com a presença de milhares de militares de todo mundo?
A ONU gasta meio bilhão de dólares por ano para fazer do Haiti um teste de guerra. Ontem pela manhã estivemos no BRABATT, o principal Batalhão Brasileiro da Minustah. Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país.
Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela?
Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros.
Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah.
A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados.
A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade.
Me incomoda a ânsia por tragédias da mídia brasileira e internacional. Acho louvável a postura de nossa fotógrafa de não sair às ruas de Porto Príncipe para fotografar coisas destruídas e pessoas mortas. Acredito que nenhum de nós gostaria de compartilhar, um pouco que seja, o que passamos ontem.
Infelizmente precisamos de mais uma calamidade para notarmos a existência do Haiti. Para nós, que estamos aqui, a ligação com esse povo e esse país será agora ainda mais difícil de ser quebrada.
Espero que todos os que estão acompanhando o desenrolar desta tragédia também se atentem, antes tarde do que nunca, para este pequeno povo nesta pequena metade de ilha que deu a luz a uma criatividade, uma vontade de viver e uma luta tão invejáveis.

Otávio Calegari Jorge

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

FIM DE ANO.

Repetimos sempre o mesmo ritual
compras, festas, bebidas,
promessas, esperanças.
Um ano termina, entra outro
e de novo, e de novo, e de novo.
Mas, o que há de novo?
Nossa enorme fragilidade.
Acredito estar ai outras possibilidades
de VIDA.

Quando se desfizer a ilusão
de que é possível ser feliz sozinho,
aí sim, quem sabe,
nossa eterna dor dê lugar
A amores leves
A um planeta lindo
A crianças com infância
A velhos guardadores da poesia
A adultos cuidadores de mundos.

Não espero nada.
Faço a travessia
e, nos encontros,
pessoas diversas.
Deixo de ser o que sou,
vou me tornando outra.

Um grande abraço a todos(as)

(Áurea)

sábado, 12 de dezembro de 2009

TRIBUNAL POPULAR - NÚCLEO DE CAMPINAS

EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS, CONTRA TOLERÂNCIA ZERO
Dez de dezembro de 2009, data em que se comemora 61 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Campinas se mobilizou para participar de uma “Tribuna Popular” contra a higienização social e a violência em Campinas. O evento aconteceu no auditório do Centro de Pastoral Pio XII.

A mesa de análise sobre higienização e violência, coordenada por Paulo Búfalo do PSol, contou com a presença da Profa. Dra. Ângela Almeida, militante dos Direitos Humanos e membro do Observatório das Violências Policiais, e também de Paulo Mariante, dirigente do PT em Campinas.

Antes de dar início às atividades da programação, Paulo Búfalo prestou uma homenagem a duas pessoas importantes do movimento: Tião, do Sindicato dos Químicos e Zezinho, da Ação Popular e do Grupo de Jovens da Vila Georgina, morto na madrugada de hoje.

Zezinho foi preso num ponto de ônibus, acusado de um crime que não cometeu, e só foi libertado uma semana depois. Incomunicável, não pode tomar os remédios necessários à sua saúde abalada com a prisão. Assustado, mas tentando retomar a vida, teve um enfarto e veio a falecer.

Paulo Mariante analisou a atuação da Guarda Municipal de Campinas que, desde a administração do ex-prefeito Chico do Amaral, tem se transformado em um instrumento de repressão ao invés de proteger a população. Considera que nos últimos anos há, nos grandes centros urbanos, uma ação coordenada voltada à repressão dos movimentos sociais e das pessoas que não podem usufruir das benesses do capital. As operações “Tolerância Zero” e “Bom dia morador de rua” iniciadas no mês de outubro deste ano tem por objetivo expulsar da cidade todas as pessoas que atrapalham os interesses financeiros e imobiliários de grupos que apóiam as ações violentas das triagens, das prisões arbitrárias, das execuções sumárias, das passagens de ônibus distribuídas entre jovens moradores de rua para que saiam de Campinas em direção a lugares onde não conhecem ninguém. Estas são ações que substituem as políticas públicas para atender a demanda de emprego, arte, cultura, educação, saúde, assistência social e outras. As poucas que existem estão sendo eliminadas dos programas institucionais.

A profa. Ângela relatou como se deu a organização do Tribunal Popular em São Paulo, criado em dezembro de 2008. Na experiência de São Paulo, nas três primeiras sessões debateu-se sobre a criminalização da pobreza, na quarta, a criminalização dos movimentos sociais, e em seguida houve o julgamento simbólico do Estado brasileiro pelas práticas de violações de direitos. Para a profa. Ângela, dizer que a polícia “está mal preparada” para atuar nas ruas não é verdade, porque a brutalidade de suas ações é um fenômeno que abrange os centros urbanos de vários países do mundo. Pobres, negros, imigrantes estão condenados ao extermínio nesta fase atual do capitalismo neo-liberal. Os policiais estão sendo formados para torturar, para matar. Além disso, segundo a profa. Ângela, as execuções, a banalização da morte estão intimamente relacionadas com os crimes cometidos pelas ditaduras, ou seja, se os torturadores de ontem estão impunes, hoje estão livres para continuar a afrontar os direitos humanos.

Após a fala dos dois palestrantes, a tribuna apresentou denúncias de violências e abusos cometidos nas operações citadas acima e que não foram noticiadas pela mídia. Uma representante do MST e dois jovens moradores de rua deram seus depoimentos.Um deles relatou sobre um arrastão feito perto da antiga rodoviária de Campinas. Não houve agressão, mas uma fiscalização/triagem das pessoas que ali se encontravam. O outro jovem, usuário de crack, morou na rua por um tempo e, atualmente, está na fundação Padre Haroldo, recuperando-se da dependência química. Após as considerações finais que culminaram no lançamento em Campinas de um Núcleo do Tribunal Popular, como espaço de reflexão e denúncia de violações de direitos humanos, o público seguiu em caminhada até o Fórum Central.

sábado, 28 de novembro de 2009

A MÚSICA DE ÁLVARO HENRIQUE

Queridos(as) Leitores(as)
Álvaro Henrique é um jovem violonista que se interessa pela divulgação da música erudita. Gostei do comentário que ele colocou em meu blog e torço para que continue firme em seus propósitos, apesar de todas as dificuldades que acompanham a vida dos músicos no Brasil. Convido todos(as) vocês a assistirem o video no qual ele toca, fala das composições, dos compositores e sobre o "violão clássico". O endereço é http://vimeo.com/7803038.  Também possui o site: http://www.alvarohenrique.com/.
Álvaro, parabéns.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

BLOG GENERACIÓN Y - AYUDAR

Meus queridos e minhas queridas.
A pedido de amigos, estou divulgando o blog de uma garota cubana que tem sido vítima de violência por relatar o cotidiano da ilha. Acho que vale a pena conhecermos e debatermos o assunto. Um abraço.

http://www.desdecuba.com/generaciony/?page_id=2222

sábado, 7 de novembro de 2009

CASO UNIBAN.

Queridos(as) leitores(as)
O Luis Fernando Vitagliano, Mestre em Ciência Política pela Unicamp e professor de Relações Internacionais da FMU escreveu um texto sobre os acontecimentos que envolveram uma estudante da Uniban. O fato de usar mini saia provocou reações violentas de jovens que inconformados com a atitude da colega, agrediram-na fisicamente e com palavrões. Compartilho com Vitagliano a sua indignação e por isso resolvi publicar no meu blogue as ideías ali colocadas. Concordo que os(as) estudantes poderiam opiniar a respeito do traje usado,  afinal vivemos numa democracia..., mas daí partir para agressões? É um caso para pensarmos sobre o tipo de educação que esses jovens têm recebido. O governo do Estado e todo o seu aparato técnico burocrático dizem que universidades como USP e Unicamp não ensinam nada, uma vez que seus cursos, principalmente os de formação de professores, são essencialmente ideológicos. O que chamam de ideológico? Uma formação que alerta para os perigos da falta de reflexão? Vale aqui um alerta: Hannah Arendt em "A Vida do Espírito" comenta o julgamento do nazista Eichmann em Jerusalem. Quando ele era inquerido sobre as atrocidades cometidas, sempre alegava ter sido um excelente funcionário, e era simplesmente incapaz de pensar sobre decisões éticas. Sempre que era confrontado com situações para as quais não havia procedimentos de rotina parecia indefeso. Diz Arendt que não se trata de estupidez, mas de irreflexão, ou seja, "é mais provável que a perversidade seja provocada pela ausência de pensamento".


Caso Uniban: a barbárie do conhecimento sem ética
(Publicado em "OPINIÃO" do JORNAL DA TARDE em 07/11/2009)
http://txt.jt.com.br/editorias/2009/11/07/opi-1.94.8.20091107.2.1.xml
Luis Fernando Vitagliano*

Vi absurdamente chocado as imagens que mostram perseguição e condenação pública da estudante da Uniban em São Bernardo do Campo por usar uma minissaia. Em reportagens li depoimentos que descrevem meninas indignadas com a saia da estudante, querendo forçá-la a tirar sua roupa no banheiro e colocar calça. De repente havia pressões de todos os lados. Nos vídeos que circulam na internet é possível ouvir nitidamente palavras de baixo calão. Li relatos sobre cuspes e chutes na porta.
Mas nada se compara ao absurdo deste fato ter ocorrido nas dependências de uma universidade. Até mesmo aulas foram interrompidas. E o mais assustador: seguranças, coordenadores e professores – não todos evidentemente – pareciam reforçar o comportamento público e também condenar as escolhas pessoais da estudante. Justo em uma universidade? Lugar que deve primar pelo respeito mútuo e colaboração, encontrarmos tamanha demonstração de preconceito e falsa moralidade.
Como professor universitário não posso deixar de manifestar indignação com o evento. A não ser que uma norma escrita pela universidade discrimine nitidamente qual tipo de vestimenta os alunos não devem usar nas dependências do campi (e arque com as conseqüências jurídicas do seu ato proibitivo), cada um tem o direito de vestir-se da maneira que lhe convier.
Discuti o evento com meus alunos, que calorosamente se posicionaram sobre o acontecido. Na tentativa de entender a irracionalidade do comportamento das massas e a epifania da barbárie, nossos argumentos se afloraram. A forma mais usual de justificar os atos de preconceitos protagonizados naquela dependência universitária é dizer que a roupa abusada foi usada causar reações. “Quem sai vestida assim professor, quer provocar!”. Se no ônibus a estudante foi chamada ‘carinhosamente’ de gostosa o que ocorreu na universidade foi uma crescente manifestação provocada pelo seu comportamento.
O argumento não se justifica. Alias é perigoso porque transformam a vítima em algoz. O argumento inverte valores e posições. A estudante da minissaia foi vitima de preconceito e não quem o provocou.
O maior risco da democracia como regime político é tornar-se a ditadura da maioria. O ocorrido é basicamente uma demonstração de intolerância com relação a escolhas pessoais. Associa a roupa às escolhas sociais: esteriotipado.
Posso dizer que eu até entenderia reações contrarias ao uso das roupas ditas ‘abusadas’ se formassem uma crescente manifestação contra o uso da minissaia – tratado assim no genérico e como regra local – claro que o conservadorismo me ia causar estranheza, mas não choque. Mas o caso não tratou disso. Foi nitidamente uma demonstração de intolerância e falso moralismo.
Não podemos nos furtar à preocupação em relação aos casos em que a moral privada, em num regime republicano, invade o espaço público. É alarmante pensar que gerações de estudantes estão se formando sem o discernimento de que o respeito às posições de grupos sociais diferentes e/ou minoritários merecem espaço na sociedade. Pior é perceber o nível de hipocrisia no Brasil: uma sociedade onde a bunda é o carro chefe de toda a televisão aberta de repente trata uma minissaia como um atentado violento ao pudor. Desesperador, no meu caso, é saber que isso acontece no corpo discente (com consentimento de docentes) do ensino superior.

LUÍS FERNANDO VITAGLIANO
http://luisvita.blogspot.com/
Cientista Social - São Paulo/SP

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CLICHES DE VIDA E DE MORTE (Contardo Calligaris)

Queridos(as) amigos(as) é difícil manter um blogue atualizado, pois as tarefas cotidianas nos consomem e mal temos tempo de parar para refletir sobre os acontecimentos. Mas, existem momentos nos quais é preciso parar, pensar em modos de ação, em maneiras de se evitar a banalização da vida, os clichês que muitas vezes nos fazem agir movidos pela raiva, pelo preconceito, pela ilusão de que fatos da nossa realidade não nos dizem respeito. Abaixo, postei um texto do psicanalista Contardo Calligaris sobre as ações violentas que refletem não apenas a situação social do Rio de Janeiro, mas do nosso país. Quando terminei a leitura desse pequeno artigo me perguntei: "o que significa PAZ?" e me lembrei da música "Minha Alma" - O Rappa: Paz sem voz, não é paz é medo, às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz.
Um abraço.


Folha de São Paulo -  29/10/2009



NA SEMANA passada, na zona norte do Rio de Janeiro, durante um conflito entre os traficantes do morro dos Macacos, na Vila Isabel, e os do morro de São João, em Engenho Novo, um helicóptero da Polícia Civil foi derrubado a tiros. Enquanto a guerra entre as facções do tráfico continua, a polícia tenta encontrar os responsáveis e, quem sabe, "reconquistar" esses e outros morros cariocas. Essa conjuntura produziu, ao longo da semana, numerosas mortes e algumas imagens assombrosas.

A mais comentada, Brasil afora, foi uma fotografia de Marcelo Sayão/Efe: ela mostra um corpo torturado e baleado, que foi achado, na terça-feira, dentro de um carrinho de supermercado, nas proximidades do morro dos Macacos.

Na foto, ao redor do carrinho, há nove adolescentes, meninos e meninas; um deles, vestido a caráter, carrega um skate; dois usam chapéus de beisebol; só um veste uma camiseta sem logotipos e marcas, branca; alguns esticam o pescoço para examinar o cadáver (ocultado parcialmente por um saco de lixo).

No mesmo dia ou nos dias seguintes, não sei mais, esbarrei em outra fotografia, cujo tema era mais usual e de cujo autor, infelizmente, não me lembro. Nela, um soldado do tráfico está em cima da laje de uma casa que é situada, provavelmente, nas alturas do morro.

A cena é fotografada de baixo, como se fosse vista por alguém que está tentando subir -por exemplo, um invasor, seja ele policial ou traficante de outra quadrilha. Com o rosto escondido pela camiseta revirada e transformada em capuz (mas quem inventou esse hábito, os jogadores de futebol ou os criminosos?), o soldado do tráfico ergue sua metralhadora mais como uma bandeira do que como uma arma. Bandeira de quê? Do tráfico de drogas ou de sua vontade (satisfeita?) de ter um acesso fácil à festa do consumo?

No fundo, tanto faz. A droga é apenas mais um objeto que resume e carrega consigo as falsas promessas de todos os outros objetos: "Consuma-me e fique bacana e feliz".

Tanto faz, também, porque duvido que, lá em cima do morro, o soldado do tráfico se preocupe com as cores e a significação de sua bandeira; ele não está defendendo ou promovendo a causa de seus valores ou de seus interesses, ele está apenas encenando (propositalmente, para o fotógrafo, para os amigos e para nós) um gesto que faz parte da retórica trivial da resistência ou da revolta, tipo "no passarán" ou lutaremos "até o último homem".

Em outras palavras, o soldado do tráfico está se identificando com as representações do heroísmo assim como elas são vendidas pela produção cultural de massa (sobretudo de segunda categoria): o que ele quer é, antes de mais nada, encarnar um clichê. Por isso mesmo, aliás, ele é patético, no duplo sentido da palavra: sinistro (porque quem age para sair bem na foto é capaz de qualquer pose -ou seja, de qualquer selvageria que capture o olhar do outro) e tocante (pela miséria de seu destino).

Falando em destino miserável, pareceu-me entender, de repente, por que o cadáver no carrinho do supermercado é o futuro do soldadinho que se exibe no alto do morro. Há, entre as duas imagens, uma implicação lógica. Claro, quem vive na bravata, geralmente, coloca sua vida em risco, mas, no caso, não é só disso que se trata.

O soldado do morro pratica uma bravata sem valores, ideais ou interesses definidos para defender. Sem dúvida, ele tem aspirações de consumo, está a fim de um tênis legal, de um chapéu de marca e de todo o bagulho de que ele precisar, mas seria ingênuo pensar que ele arrisca a vida por essas "commodities" -que, afinal, ele poderia conseguir de outro jeito, a um custo menor.

Se ele arrisca a vida é para nos mostrar, do alto do morro, sua metralhadora erguida, na esperança de causar forte impressão: junto com nosso medo, ele quer suscitar nossa admiração, quem sabe nossa inveja. Por isso, antes de ambicionar TER as coisas que estão nas prateleiras das lojas, ele ambiciona SER um enlatado cultural, um produto de massa supostamente desejado por todos. E é normal que um produto de massa, mais cedo mais tarde, acabe num carrinho de supermercado.

Talvez seja este o sentido da curiosidade manifestada pelos jovens reunidos ao redor do morto desovado em baixo do morro dos Macacos: "Que produto mais estranho é esse? Será que é maneiro? Será que é "da hora'?".