segunda-feira, 2 de março de 2009

RELATOS DE UM PROFESSOR ESGOTADO

Queridos(as) Leitores(as)
José Luiz Pastre é professor da Rede Estadual de Ensino, doutorando do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisador do grupo Violar. A partir de hoje, ele passará a escrever crônicas no meu blogue. Essas crônicas receberão o seguinte título “Relatos de um professor esgotado”. Esses relatos abrigam um conjunto de memórias contadas por um personagem virtual, porém real, chamado Zenão. Trata-se de situações vividas enquanto trabalhava em escolas públicas e que, de algum modo, o impressionaram. Aqui, o esgotamento não tem nada a ver com cansaço. Tem mais a ver com busca, com procura...
Hoje, ele nos brinda com a Crônica I: Memória de um Drama.


Para cantar é preciso primeiro abrir a boca.
É preciso ter um par de pulmões e
um pouco de conhecimento de música.
Não é necessário ter harmônica ou violão.
O essencial é querer cantar.
Isto é, portanto, uma canção.
Eu estou cantando.

Henry Miller – Trópico de Câncer


Crônica I: Memória de um drama: Foi uma manhã de uma terça-feira de novembro de 2005. Tinham acabado de sair da sala da direção. Zenão lembra-se vagamente das palavras de Clarice, aluna do 3c, enquanto subiam a escada, era algo como “Professor não desista!”, querendo dizer “Não fraqueje!”, “Não se arrependa de ter nos apoiado!”. Já na sala, enquanto ele recolhia seu material de trabalho, pois havia dado o sinal para a troca de professores, Pagú entrou, sentou-se numa carteira, abaixou a cabeça, mas logo em seguida a levantou, com os olhos cheios de lágrimas! Ele se aproximou, seus olhares se cruzaram, e ela simplesmente lhe disse: “Nós conseguimos!”. Ele, ainda atordoado pelos acontecimentos, fez que sim com a cabeça. Havia naquelas lágrimas, naquelas palavras, uma força e uma alegria. Aqueles alunos tinham acabado de ser ameaçados de serem expulsos da escola porque escreveram um jornal-panfleto em que expunham suas idéias, suas críticas, a respeito da escola. Zenão se lembra que enquanto eram ameaçados de serem expulsos, permaneciam impassivos diante da “paranóia delirante”: “Estão tentando derrubar a direção!?”. Quando diante da diretora, perguntou se ela já havia lido o jornal, ela disse que não, mas aquelas baratas na capa... Além disso, eles mudaram o nome da escola de “Oliveira” para “Sujeira”, e ela se matando para manter a escola limpa para eles. Zenão tentou explicar que a barata era uma metáfora Kafkaniana (foi o que lhe veio na hora – mais tarde descobriu que uma das alunas havia lido “A metamorfose” de Kafka), mas não adiantou. Ela também chorou. Mas havia naquelas lágrimas medo. Tantos medos. O medo de ler o jornal. O medo das baratas. O medo do que os superiores poderiam pensar. O medo de ser “derrubada”. Ela achava que havia alguns professores usando os alunos para derrubá-la. Na verdade, boa parte dos professores e funcionários pensavam a mesma coisa. Eles não acreditavam que aqueles textos tinham sido escritos por aqueles alunos. Havia “alguém por trás”. Ou eles subestimavam o próprio trabalho, ou subestimavam os alunos, ou as duas coisas! Zenão não soube dizer! O fato é que talvez “aquilo”, alunos de uma escola pública se expressando, pensando, eles não esperavam. Uma semana depois, quando Zenão disse para um colega professor que a aluna que escreveu o editorial havia passado num dos primeiros lugares do vestibular no curso de filosofia na USP, ele levou um susto e ficou mudo.
No final, os alunos não foram expulsos. Mas uma fenda foi aberta naquele dia... Se olharmos bem talvez a escola inteira esteja cheia de fendas... Como isto ainda funciona com todas estas rachaduras?





10 comentários:

  1. Caro José Luiz,
    bonita a crônica!Vejo o quanto certo tipo de sensibilidade pode nos atentar para situações desse tipo, e interessante que você usa as palavras 'rachaduras' e fendas e eu me ponho a pensar se não são a mesma coisa que, ao ser apropriado por nosso olhar/ação,adquire significados e funções diferentes...será? de uma mesma rachadura se abre uma mesma fenda? se for assim poderia ser 'rachamole' talvez!? um beijo, Juliana

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  2. É incrível como algo que deveria parecer comum em um ambiente de formação, torna-se uma ameaça aos olhos da maior parte do atores. Qual o significado da existência da escola para estas pessoas? Fomentar um processo de "emburrecimento" geral, no qual professores e alunos não pontuem suas observações e críticas sobre o meio em que estão?
    Cabe então ao aluno lembrar ao professor que não desista de seus ideais? Que bom que estes alunos tiveram a oportunidade de ter contato com este mestre que apóia e se importa com seus questionamentos. Acredito que na vida do jovem, ter alguém que se importe com ele, é determinante na escolha de seus caminhos.

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  3. Uma pergunta para o Zé:
    o esgotado seria aquele que tenta pensar o impensável; agir para além dos processos já conhecidos,portanto, esgotados? Diferentemente, o cansado seria aquele que tenta cumprir metas utilitárias, atingir finalidades programadas? Após um descanso, lá está ele repetindo-se e afastando-se cada vez mais de ações criadoras.
    Aguardo seu retorno.
    Um abraço.
    Áurea.

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  4. Sim Áurea, penso que seja por aí! O esgotado é mais que o cansado, esgota todo o possível! Ele não pode mais possibilitar, porque abdicou da lógica do isto ou aquilo! Ele esgota o que não se realiza no possível, pois simplesmente acaba com a noção de possível enquanto possibilidades, projetos ou ideais a serem realizados, e retoma o seu trabalho em certa exploração! E diferentemente do fatigado (dos "cansados"), não se cai no indiferenciado, ele não é indiferente ao que se passa...

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  5. Então,faço a pergunta: qual a fertilidade em falarmos do esgotamento das instituições educativas?
    Bjs.
    Áurea.

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  6. E "quem" disse que elas estão esgotadas?
    Elas estão funcionando muito bem: produzindo índices de aprovação, produzindo muitas "cabeças inclinadas", muitos "cérebros controlados", muito cansaço, muita morte e desânimo! Resta saber se entre fendas e rachaduras há alguma saída para a vida!! Um bom tema para a próxima crônica!
    bj, zé!

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  7. Teresa Pão-de-ló23 de março de 2009 21:18

    Que discussão interessante!!!
    Acho que...quando não se constróem janelas, os infinitos contidos entre as paredes se extravazam entre fendas! Ainda bem que consigam se extravazar...Mas...e quando se fecham gaiolas antes, dentro das salas, dentro das paredes...?
    Um conto e uma discussão instigantes, parabéns!
    Hay que prosseguir!

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  8. Teresa Pão-de-ló23 de março de 2009 21:21

    p.s.: Cantar tem de ser para todos...

    rir tem de ser para todos...

    existência tem de ser para todos...

    Bjs

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  9. Creio que as crônicas de "Zenão" irão nos surpreender a cada edição, como foi o caso da primeira, muito interessante!
    E além do já comentado, percebo como a pressão do sistema escolar recai sobre todos, criando esse clima de tensão que atinge os vários segmentos da escola. No caso, a diretora também se sentia pressionada, com medo de ser derrubada e receosa da opinião de seus superiores sobre o ocorrido.
    Com essa tensão que atinge a escola como um todo, são inevitáveis as "rachaduras", como bem finalizou a crônica.

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  10. Muito interessante, Parabéns Zé! Continue nos presenteando com as suas crônicas.

    Paula

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